Eu era ela, ela era ela e ninguém era eu

março 15, 2009

Afundei em uma poltrona macia, vermelho-escura. Eu já alcançava a parede com os pés — poderia ficar assim pela tarde toda — mas minha gata circundou todos os pés da mesa e decidiu-se alojar-se justamente sobre minhas pernas. Puxei-a pra perto, voltei os pés ao chão, acariciando a cabecinha triangular e pequena. Ela regozijava-se, apertando olhinhos de fenda, enroscando as unhas pela minha roupa. E eu, de pés no chão.
Miado de gata. Fixei bem meu olhar no dela, com deleite digno de amantes. Sempre havia paixão quando estávamos assim, próximas, suaves, e ela se rendia logo. Tão rápido quanto vinha, porém, também se ia; então eu me esforçava em agradar, em acertar os movimentos, as expressões e o que mais a mantivesse ali.
O interessante era que ela ficava, mas eu não me satisfazia. Insistia em guardá-la ao meu lado, tê-la ao alcance e sentir o abandono, sendo que apenas vivia uma saudade do que não existiu. A gata havia sempre pertencido a si própria. Eu, a ela.
E ninguém — nem ela, nem eu —  se lembrava de mim. 

 

 


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