Final não!

julho 21, 2009

A primeira promessa que fiz no final das aulas de junho foi não ficar sozinha. No ano passado, me isolei no computador com amigos distantes e passei o mês numa melancolia medonha, ocupando meus dias com absolutamente nada e sentindo um vazio gigante. No início de agosto, então, consegui me sentir ainda pior. Não sei se foi consequência direta, mas foram noites e noites de choro desesperado e vontade de voltar pra casa. Portanto, esse ano tinha que ser diferente.

Eis que estou na última semana de férias. A promessa vinha sendo bem cumprida, senti-me radiante durante todo o mês. Cozinhei, desenhei, li, saí, domi… Acho que, com exceção de escrever, todas as pequenas promessas foram realizadas. Então a Bia foi viajar, o fim foi se aproximando e eu tô me isolando outra vez. Não que as pessoas me isolem; eu sou quem faz isso. Ligo o PC, que me irrita, dificilmente saio do quarto e não olho nos olhos de quem converso. Ah, e brigo com todo mundo.

A única solução é as férias pararem de acabar. Tem como?


Minhas férias

julho 12, 2009

Minhas férias já estão na metade e estou razoavelmente feliz por ser sugada pela inércia, pelo nada, por minha casa. Do que eu chamava Vitórias de Férias, a mais importante era perder a noção dos dias. Perdi, recentemente, a dos dias do mês e da semana. Como é que se esquece o dia da semana? Isso é maravilhoso.
No começo, passei algum tempo cozinhando, como havia planejado. Então, todo mundo em casa começou a engordar, inclusive eu. Aí tive de parar com os doces e massas. Isso porque em casa temos uma forte comunhão alimentícia: todos devem experimentar o que é preparado em nossa cozinha. Também, ninguém resiste a bolos exóticos, tortinhas e massa caseira de macarrão.
Ah, cheguei a botar corante alimentício na massa, recentemente. Ficou estranha; verde e vermelha quando crua, rosa e azul-bebê quando cozida. Desbotou durante o cozimento e a água da panela ficou roxa. Muito estranho. O Rodrigo me ajudou numa parte do preparo e comeu, depois.
Sinceramente, não senti prazer em comer macarrão colorido. Parece que aquela corzinha amarela do ovo estimula o apetite, fazendo com que fique boa até pura, só com o leve sabor da margarina que sempre coloco antes de servir separada do molho, pra ela não grudar.
Ah, mesmo assim, pretendo fazer pizza amanhã. O preparo da massa é bem mais simples, fora que reencontrei a receita anotada há menos de uma semana. E olha que estamos todos de regime. Droga de regime.
Junto com o caderno onde a receita se encontra, um com uma foto da Clarice Lispector na capa, recebido graças a uma excursão ao Museu da Língua Portuguesa uns anos atrás, reencontrei meu caderno de rascunhos da oitava série, antes do inferninho pré-vestibular ou mesmo da minha mudança de cidade. Foi iniciado e finalizado no mesmo ano, apesar de trazer uns cantos com anotações do primeiro ano do médio. Descobri que escrevia bem, sabe? Tinha mais espontaneidade do que hoje em dia. E as histórias yaoi são, em boa parte, boas. Sim, boas. Perdi dois anos de escritora virtual de yaoi achando que não conseguiria nunca me satisfazer.
Depois disso, decidi voltar a tentar escrever. Aproveitando o resto das férias pra imergir um pouco no isolamento de anos atrás, aceitei ler um dos livros favoritos do Rodrigo. Foi uma noite em claro e metade devorado. Agora, faz dois dias que não tenho coragem de continuar. Não pela leitura em si, mas porque já sei um fato decepcionante do enredo (malditos traileres, malditos) e cada vez que paro de ler, é como se voltar à leitura fosse desejar a frustração que vou ter ao chegar naquela parte. É isso que me desanima a ver filmes, também, mesmo sabendo que não vou conseguir parar quando começar a ler o livro ou ver o filme por serem bons. Estranho?
O livro é Reparação, base do filme Desejo e Reparação. Por que raios todos os nomes de filme devem começar por “Desejo” ou terminar em “da Paixão” , “da Pesada” e “Muito Louco” aqui no amado Brasil? Adoro isso, hahaha, mentira.
O próximo passo é conseguir escrever. Tenho fé, ainda — o Word tá até aberto.
Rezem por mim, amiguinhos.
Fim.


Pausa pra um comentário aleatório

junho 30, 2009

Estava jantando cachorro-quente, quando o Jornal Nacional trouxe a Sessão Michael Jackson ao ar. Fotos do último ensaio (triste), especulações quanto à razão da morte… Enfim, a revolta veio quando mostraram o pronunciamento da família.
Seriamente falando, a família Jackson tá fazendo um papel extremamente filho-da-puta ao se aproveitar de forma tão clara da morte do cantor. O pai aproveitar pra anunciar a abertura de uma nova gravadora enquanto falava da morte do filho foi ridículo. Depois, vem a velha pegando a guarda dos netos e “todos os bens, pra ajudar na criação dos garotos”. Não dá pra disfarçar o cagando-e-andando?
Deveria ter regurgitado em mim mesma quando o primeiro garoto teoricamente molestado por ele contou que a história de estupro era mentira. Só 20 milhões de dólares.

Tô puta, tô puta.


Frio e Projeto Mecenas

junho 7, 2009

Sra. Griffin

Pra fingir que ainda estou viva, vou postar outro desenho. É a Sra. Griffin, personagem de O Ladrão da Eternidade, do Clive Barker. Também é um “ooolha o que eu li!”. O magavinífico livro é do, e acho que todo mundo deveria ler. Além disso, me faz pensar sobre o que falta na literatura infantil brasileira. Não que seja ruim, mas não vejo destaques. Dá a impressão de que tudo se torna uma infinita massa de historietas afundadas em meias-palavras. Pronto, falei.

O traço do artista é simplesmente inspirador. Cada personagem tem uma caracterização marcante e cada cena, suas cores próprias. Alguns aspectos são explicados no final do livro, num espaço reservado ao ilustrador. A Sra. Griffin, por exemplo, feita basicamente por cabeça e mão (não dá pra ver no meu desenho, mas o corpo é looongo e fino), é inspirada em uma marionete.
Ops. Spoiler. Parei.

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Sim, imagino que ver desenhos seja ainda mais desinteressante do que ler sobre uma vida santa, mas ando sem ter muito o que dizer. Nos últimos finais de semana, fui completamente absorvida por The Sims e comida. Pra piorar, faz duas semanas que não estudo. Acho que logo, logo vou ser absorvida pelo Nada.

Terça retrasada e quarta passada foram dias de prova. Isso me foi desculpa pra não estudar no restante das duas semanas, e uma pontada de desespero tá querendo aparecer. Sério, não aguento mais! Tava seguindo a rotina de estudo já fazia cinco meses… É demais pra minha vida preguiçosa e passiva (e devota). Meus planos são estudar pelo menos nessa última semana de aula e na próxima, é claro, por ser semana de provas. Depois, adivinhem: beata sai de férias!

Na quarta, pela noite, visitei o Projeto Mecenas, mostra de arquitetura, design e paisagismo de São José do Rio Preto.  Tava frio pra caramba, e Bárbara e Beata acabaram chegando quando Maria Clara, Guilherme e Kauê estavam de saída. Tudo bem, ficamos só nós duas.
Bárbara logo reclamou que a casa era pequena (era mesmo!), e nossa primeira glória foi encontrar o banheiro. Havia espaços realmente interessantes, mas também trabalhos péssimos. Havia um que era quase exposição de uma só loja! O patrocinador só faltou oferecer o nome rabiscado sobre o nome do arquiteto.

Conversamos com quase todo o pessoal que tava auxiliando. Eram estudantes de arquitetura, do primeiro ao último ano, que sabiam coisa ou outra sobre o trabalho. O assunto, na verdade, nem foram as propostas: foi o curso de arquitetura. Já faz eras que enrolo na hora de pesquisar sobre e achei que seria uma chance válida.
Também descobri que o que se via por ali, basicamente Design de interiores, era assunto de pós, como arquitetos não são necessariamente designers. Daí fiquei me questionando sobre os limites entre Engenharia civil e Arquitetura. Pra alguém que parte pra essa parte técnica e estrutural, não seria mais interessante Engenharia? Enfim, confusões de ignorância. Um dia, hei de pesquisar melhor.
Também tinha gente do SENAC. Passamos um bom tempo conversando com a representante. A parte deles foi uma fusão entre o pessoal do curso de Design de interiores, Moda e Maquilagem. Promoveram  um desfile no primeiro dia, inclusive. A decoração consistia em alguns modelitos, pinturas na parede e uma maquina de costura luxuosamente antiga. Achei a proposta interessante (principalmente quanto à interação entre cursos), mas de estética fraca. E é  uma opinião de interessada, certo? Não de entendedora.
Tinha muito mais coisa, destaque pro banheiro do quarto dos netos (xeeente, uma pia baixa, de quinas arredondadas e coberta por pastilhas verdes linda!) e pra suíte master. Soube que a casa é “emprestada” pra mostra e a dona fica com parte do que é reformado (a pia linda, por exemplo, não sai). Nos fundos, tinha música e comida. Não jantamos, já que não pagamos por isso na entrada. Ainda bem, porque tinha cheiro de comida pra cachorro, sério.

Não ficamos muito, a mostra era meeesmo pequena. Senti um leve preconceito com a nossa condição de estudantes do Ensino Médio mal vestidas, apesar de alunos do Seta terem desconto. Desconto não é uma espécie de convite? É, talvez não. Não importou: fomos intrometidas e sorridentes.

Tsc.


Juventude

maio 9, 2009

Era dia claro. A cidade, louca e movimentada, em nada se contrastaria com os cinco jovens na melhor época de suas vidas. Encontraram-se em um restaurante de centro de cidade no horário de almoço para discutir suas superficialidades levadas a extremos. Culpá-los? Não por algo assim, tão típico da juventude. 
– E então, Clara, o que ‘cê vai fazer hoje à tarde?
Era magro, moreno, olhos vivos. As ideias passavam-lhe pela mente tão rápido quanto ele as proferia. Os gestos seguiam sua vivacidade — mãos impetuosas, voz projetada.Talvez soassem desconexas, suas frases, mas tinha auto-afirmação; afinal, Renato era um jovem.
– Hm… Simulado.
Xande só observava por sobre o copo em que bebia.
– Ahn, legal. — Algum silêncio. Ele a observou durante segundos curtos. Todos mastigavam, entreolhando-se. Adorava como o cabelo dela não passava da nuca e seu pescoço escondia-se sob uma gola alta. — É, legal. E você, João?
– Inglês.
João, sério, coçou a cabeça raspada e suspirou em impaciência. Voltaram a comer. Mais um pouco e Renato olhou de lado, meio para baixo, e viu a garota da franja que começava no meio da cabeça arrepiar-se diante dum curau malfeito de restaurante. Descruzou as mãos e cutucou-a, impaciente.
– E aí, Naira, o que faz depois que a gente sair daqui?
Ela olhou-o, séria. Clara conferia a hora no celular. João pegou a mochila e a comanda, indicando a saída para Xande com a cabeça.
– Estudar. E você?
– Tenho aula.
– Legal.

E viva o vestibular.


Beata vai à capital

maio 9, 2009

Minha desculpa inicial para o sumisso no blog seria uma viagem pra Brasília há acho que dois finais de semana. Como só entro de sexta, sábado e domingo, não teve como postar nada. Aí  acumulei umas cinco postagens na cabeça e não, não me lembro de nenhuma, só da sobre a viagem. Enfim, fica sendo esse o assunto, mesmo.

Não parei no Congresso Nacional, não tirei foto rezando na Catedral, não vi Catetinho, Salto do Tororó, Mumunhas,  não tomei o poder. Na verdade, fui a uma festa de aniversário (de ônibus, sério) acompanhando minha irmã e passamos por esses lugares.
Minha foto do Congresso é uma bacia envolta pela janela do ônibus:

Bacia Nacional

Isso é que é foto bem tirada, podem falar.
Alguns outros apontamentos:

  • os ministérios são verdes e feios;
  • metade de Brasília é gramado;
  • até  recepcionista de hotel tem cara de deputado;
  • havia uma senhora de 80 anos no nosso quarto;
  • experimentar corpete fora do provador da loja não é inteligente;
  • casquinha do Giraffas é melhor que do Mequidondi;
  • essa senhora é legal demais;
  • festa me tira o apetite;
  • vinho prosecco serve;
  • memória apagada a partir daí (mentira).

Ao menos visitei o Memorial JK. É demais, sério. Pra reprodução ser mais detalhista, só faltariam suas cuequinhas e as datas de utilização. Há fotos maravilhosas, lá, inúmeros pertences pessoais e uma reprodução de sua biblioteca. Entrei nela e meti a mão em todos os livros (sem, é claro, retirá-los das prateleiras). Com o tempo, fui percebendo um sonzinho irritante e pensei que poderia ter algum dispositivo que apitasse justamente quando ultrapassássemos os limites. Aí parei. Tava todo mundo roçando nas capinhas como eu, e os funcionários (vestidos de comissários de bordo, hihi, adorei) com cara feliz de que nem mais valia a pena implicar. Aí fiquei sorrindo diante da cena. Boba.
Os restos mortais do ex-presidente estão numa sala redonda, com paredes negras, chão de carpete vermelho e uma espécie de… Seria vitral? Vitral de anjo sobre o sepulcro da mesma pedra negra da parede. É lindo. Tem umas fotos aqui (na verdade, são muitas do Memorial, só que dá trabalho passar pra cá e minha preguiça não me estimula).

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A arquitetura, como se sabe, é estonteante. Mesmo passando por pouquíssimas partes da cidade (creio que não cheguei a adentrá-la realmente), passeei por Brasília de boca aberta. E o mais interessante de uma cidade planejada, pelo menos creio que seja esse o motivo, é ver edifícios gigantescos e modernos cercados por vaaastos espaços de grama e rua. Muita grama e muita rua. Digamos que seja  surreal e… Feio. É, não gostei muito da sensação de perdida no meio do nada, com Niemeyer gatinho e Lula (com o primeiro, até rolava).
Qualquer coisa, é meu espírito do interior.

A festa foi demais, só lamento ter comido apenas salada. Até poderia ser regime, né? Mas não: deixei a comida e os doces de lado porque só fui comer quando já tava “boa” pra dançar sem sapato. Não desceria muito mais que isso. A safada da Nádia comeu todos os docinhos (tentando disfarçar a intenção de devorá-los diante de um integrante da banda louco pra puxar assunto) — eu quis morrer quando soube que eles existiam, no dia seguinte.

Batendo foto com plena noção do que se faz.

Outros apontamentos:

  • o garçom do prosecco era um piadista nato. A cada 20 minutos surgia d’entre as brumas do bifê com uma garrafa e olhar malicioso, oferecendo mais um pouco do vinho com cara de “meu, você tá ficando péssima e isso é um sarro!”;
  • na loja do corpete, creio que da rede Marisa, experimentamos até aquelas calcinhas redutoras de medidas por cima da roupa. Ninguém entendia coisa nenhuma, mas pegávamos os menores números só pra gritar “maaaais, maaais; murcha essa barriga, minha fia, que só faltam dois colchetes!”;

Se me vier algo mais, coloco aqui depois.


Um desenho

abril 18, 2009

Cordeirinhos, vamos às novidades:

A história do tomate havia acontecido na terça-feira, antes da sexta-feira da paixão. Após o feriado prolongado, la beata chegou feliz com uma sacolinha de tomates na pensão, achando que seria a semana mais sacra de sua vida alimentar.
Segunda-feira… Deu. Comi tomate, cortei bonitinho, fiz um prato até agradável. Terça-feira, um deles já estava podre (comi os outros) e aquilo me deu uma sensação de intoxicação alimentar e agonia e AIMEUDEUSnãoaguentomaistomatenojinhobotasalnessam… Aí comi uns três e pedi um chinainbox padrão, que foi devorado em poucos minutos. Amém.

NÃO, eu NÃO TÔ FICANDO LOUCA. Já larguei as ideias do tomate. 

Escaneei um desenho aleatório aqui, de quando meu caderno de desenho ainda não havia sido invadido por contas e resumos de escola. Olha, não sei colorir, tá mal escaneada, o pescoço do da esquerda tá gigantesco, a mão do da direita tá desproporcionalmente pequena, a boina tá estranha e etc etc etc, MAS ainda gosto desse desenho inacabado.

 

Sim, são dois homens.


Beata e a conspiração fiscal

abril 9, 2009

Na terça-feira, acordei completamente natural. Meta: comer tomate e maçã o dia todo, tomar leite, tomar água.
Saindo da escola (aquele sol de sempre), subi para a pensão, troquei o uniforme pela camiseta mais antipática que encontrei nos fundos do armário e perguntei à dona da casa: como raios se compra um tomate? 
A resposta, já imaginava — apalpe e veja se não está mole. A casca também é importante.
Pois bem, beatinha, vamos à feirinha do supermercado!

De lá saíram perguntas como “Por que ninguém segue a fila?”, “Que raio de carrinho cheio é esse no caixa rápido?”, “Quantas toneladas de fruta essa “jovem senhora” vai pesar?”, entre outras. De todas,  a mais importante do dia: ” Qual é a das funcionárias de caixa que não querem me dar nota fiscal paulista?”.

Desde a novidade da devolução de parte dos impostos sobre os produtos através do CPF, fui apenas duas vezes àquele supermercado. Na primeira (também não faz muito tempo), a atendente não me dirigiu palavra até passar todos os produtos que encontrou à vista. Eu sabia que o CPF ia antes disso e que ela precisaria cancelar a compra, mas queria ver até onde iríamos. Como ela não se pronunciou, perguntei por que não havia perguntado pelo número do meu CPF. Resposta: porque eu estava conversando, e a amada havia sido educada de não atrapalhar.
Pois é. Eu respirei, passou. 
Terça-feira, ao meio-dia, voltei ao lugar em busca de tomate e maçã. Uns minutos de sono, tédio e fome na fila e lá estava a beata, SEM CONVERSAS, diante de outra funcionária que, mecanicamente, soltou o nasal e monótono “Vai querer CPF na nota?”.
Eu disse que sim. Sim, moça, eu quero! Aqui, nos meus olhos: sim. Ela ignorou, a amada. Passou todos os produtos e disse o valor da compra.
Juro que a fiz passar tudo de novo. Aposto que vou ter de orar durante uma semana, ao menos, para compensar as possíveis maldições proferidas pelos que esperavam na fila do mesmo caixa, já que a máquina fez o favor de travar. E houve mais: foram somente três reais, e nem sei se os produtos da feirinha entram no esquema tributário. O que importava, no momento, é que ela era obrigada a oferecer o serviço e (valha-me deus) a não ignorar o consumidor.
Capisce?
PS: passei essa semana que nem o demônio, eu sei.


Eu era ela, ela era ela e ninguém era eu

março 15, 2009

Afundei em uma poltrona macia, vermelho-escura. Eu já alcançava a parede com os pés — poderia ficar assim pela tarde toda — mas minha gata circundou todos os pés da mesa e decidiu-se alojar-se justamente sobre minhas pernas. Puxei-a pra perto, voltei os pés ao chão, acariciando a cabecinha triangular e pequena. Ela regozijava-se, apertando olhinhos de fenda, enroscando as unhas pela minha roupa. E eu, de pés no chão.
Miado de gata. Fixei bem meu olhar no dela, com deleite digno de amantes. Sempre havia paixão quando estávamos assim, próximas, suaves, e ela se rendia logo. Tão rápido quanto vinha, porém, também se ia; então eu me esforçava em agradar, em acertar os movimentos, as expressões e o que mais a mantivesse ali.
O interessante era que ela ficava, mas eu não me satisfazia. Insistia em guardá-la ao meu lado, tê-la ao alcance e sentir o abandono, sendo que apenas vivia uma saudade do que não existiu. A gata havia sempre pertencido a si própria. Eu, a ela.
E ninguém — nem ela, nem eu —  se lembrava de mim. 

 

 


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